sexta-feira, junho 30, 2017

Imparcialidade

A imparcialidade pode revelar-se uma doença da alma. Não tomar partido, observar o mundo e os acontecimentos de uma forma absolutamente justa, sem o julgamento inquinado por um ponto de vista específico? Tenho a impressão de quem nem Deus será capaz de tão extraordinária façanha.

Para um mortal comum, o esforço de olhar o mundo de forma imparcial poderá provocar um caos desapaixonado pela percepção de que tudo é mesquinho, pode sugerir que a existência humana emporcalha tudo e destrói o planeta arrastando tudo o que a rodeia para o vórtice do aniquilamento absoluto.

A constatação de que cada um de nós tem um nariz e um umbigo, limites óbvios da perspectiva individual do universo, também não ajuda.

A imparcialidade é uma coisa impossível?

domingo, junho 25, 2017

Confusão

A exposição mediática é uma coisa monstruosa. Qualquer assunto que caia na malha apertada das redes dos pescadores de desgraças que distribuem o seu produto aos serviços noticiosos, corre o risco de crescer subitamente, uma lombriga transmutada em anaconda num abrir e fechar de olhos.

A catástrofe de Pedrógão Grande é mais um entre mil casos de consumo mediático, tão característicos da era digital e da TV por cabo.

Mesmo as questões mais graves, os momentos mais significativos, incham como um tumor e esvaziam-se de conteúdo quando submergidas por maremotos opinativos que tudo levam na enxurrada. É uma confusão, um fastio, um tédio infinito.

Consumimos a dor e miséria como se fossem iogurtes ou bebidas frescas numa tarde quente. Todos se aproveitam, muitos exploram, mas, no fim e lá no fundo, ninguém sai completamente limpo de uma cena destas: nem os que mostram, os que oferecem, nem os que vêem, os que consomem.

Tudo isto me parece extremamente complexo e me deixa extraordinariamente confuso.


terça-feira, junho 20, 2017

Mentira

Várias coisas me enojam ao ponto de fazer crescer em mim uma incómoda vontade de fazer mal, também ela nojenta a gastar. Não pretendo justificar a baixeza de certos impulsos que de tempos a tempos me animam, sou um bicho, assumo-o com plena consciência da minha animalidade; mas tenho de reconhecer que, se não fosse devidamente estimulada, uma certa besta imunda que trago cá dentro talvez nunca saísse do seu sono mais profundo.

À estupidez suporta-a a custo, à mentira premeditada, tal como à sonsice, não admito qualquer tipo de espaço por ínfimo que seja. Aqueles que mentem de forma deliberada espevitam o tal bicharoco imundo que habita as profundezas das minhas entranhas.

A mentira terá diferentes graus numa escala que lhe determine a gravidade, admito. Há mentiras inofensivas, mentiras piedosas, essas são suportáveis. Há até mentiras que são proferidas com uma profunda convicção de se estar a falar verdade. Essas podemos mesmo respeitar. Mas a ignorância não pode justificar todas as baboseiras que possamos engendrar.

Finalmente há as grandes mentiras. São essas que me tiram do sério e me transformam numa autêntica besta.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sábado, junho 17, 2017

Fantasmita

Diz-se que o cão é o melhor amigo do homem, que um livro é uma óptima companhia, coisas assim. Não me parece nada que estas ideias sejam sinceras, parece-me que são tentativas de espantar o mais melancólico dos fantasmas, aquele que ali está e que tem Solidão por apelido.

Quando passamos muito tempo sozinhos sentimos uma mordida no coração. Não é muito forte, não quer despedaçar-nos o músculo vital, não. É apenas assim mesmo, um fincar de dentes para não largar, uma coisinha teimosa ali pendurada, a tremelicar a cada batida, uma coisa bastante melancólica, até.

Pessoalmente, são mais as ocasiões em que opto por ficar só do que aquelas a que tal sou obrigado. Ainda que muito preze a companhia das letras, que não desdenhe a presença de um canídeo e ame  a Humanidade muito mais do que gosto de admitir, tenho por este bichito que mordisca o meu coração um carinho especial. Gosto deste fantasmita.

quinta-feira, junho 15, 2017

Metáfora

Cada vez menos sou capaz de acreditar que haja, de facto, uma separação de poderes na forma como interpretamos o sistema democrático no nosso país.

Os responsáveis pela elaboração das leis parecem estar profundamente comprometidos com as forças obscuras do vampirismo que tem a dentuça ferrada na jugular do Estado. É como ter raposas a guardar o galinheiro e um bando de furões como encarregados dos serviços de limpeza da gaiola onde pomos os nossos ovos. Anda a galinhada num virote, a levar dentadas, a perder penas, a sofrer de desorientação e com inveja da vizinha a quem apenas foi levada uma pernoca na última investida das bestas que zelam pelo nosso bem-estar.

Quando olho, por exemplo, para o que se passa no Brasil ou em Angola, não sinto qualquer tipo de alívio por estar enfiado neste galinheiro lusitano. Sinto uma espécie de solidariedade melancólica por perceber que eles têm leões no lugar das raposas e jacarés no lugar dos furões.

Vivemos um tempo em que as máscaras das bestas que nos devoram caem com facilidade. Vemos com nitidez a deformação hedionda dos seus focinhos, aspiramos o hálito fedorento que exalam enquanto cirandam ao redor das nossas vidinhas. E, no entanto, parecemos hipnotizados, imobilizados perante o poder encantatório das ilusões que nos oferecem para nos amolecer as carnes antes de lhes ferrarem o dente.

No meio desta merda toda Portugal não passa de metáfora, coisa pequenina. Mas, para mim, para os que vivem neste galinheiro, é coisa enorme por ser o lugar das nossas vidas.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...

segunda-feira, junho 12, 2017

Chateação

O tempo está parado; é espesso como uma malga de sopa morna. Compreendo o que sentiria uma ervilha ou um pedaço de cenoura que tivesse escapado ao passevite, ficando a boiar enquanto não viesse a colher recolher-lhe a alma para a levar à boca de quem come.

O tédio é um bicho gordo e egoísta que se deita sobre os teus pensamentos e ali fica, sem fazer nada, a tapar a vista à imaginação, a peidar-se e a fingir que abana a cauda. Tentas enxotar a bestiola mas... qual quê! Dali não sai, dali ninguém a tira que ela é uma estátua plantada no jardim da tua inutilidade.

Não sinto o vento no rosto. Não sei se por estar um dia sossegado, se por ter as janelas todas fechadas. Não sei. Não me apetece saber.

Nem a leitura me ajuda a completar tanto espaço vazio que me entrou dentro do corpo.

domingo, junho 11, 2017

Vontade de desenhar

Continuo para aqui sentado, perna esticada, a secar. Ter os movimentos condicionados é chato (terrível seria expressão exagerada, caríssimo leitor; mais adiante iremos reflectir sobre isso mesmo), surpreendentemente muito mais chato do que era capaz de imaginar olhando outra pessoa nas mesmas condições em que me encontro.

Imagino (tento imaginar!) como será um gajo poder movimentar-se com eficácia motora mas estar emparedado, prisioneiro num espaço exíguo. Querer e não poder dar mais que cinco passos seguidos em linha recta; terrível! Isto sim, será certamente algo terrível. Esta merdice que por ora me atormenta irá ser debelada. A lesão diluir-se-à no tempo e com o tempo, desaparecerá de forma discreta, a contrastar com a estridência estapafúrdia da sua chegada, serei livre de novo.

Pensei que esta pasmaceira, esta imobilidade, imaginei que estar assim, sentado horas a fio fosse propício ao desenho. Pedi À minha filha um certo bloco, rodeei-me de lápis e canetas. Já lá vão dois dias e... nada. Nem sequer vontade de desenhar.

Talvez a minha vontade de desenhar resulte da liberdade de movimentos, talvez o apetite pela criação me exija alguma capacidade de levar o cérebro daqui para ali. Talvez alguns consigam criar quando estão em cativeiro ou sintam necessidade de se expressar quando têm o cu irremediavelmente agarrado ao tampo de uma cadeira.

Agora que reflecti um pouco sobre este assunto talvez seja capaz de desenhar alguma coisa.

sexta-feira, junho 09, 2017

Frágil

Como na canção de Jorge Palma, "sinto-me frágil". Ontem, ao atravessar uma rua movimentada, fiz um gesto qualquer, daqueles que não chegamos a perceber que fazemos e logo senti um músculo na barriga da perna a abrir-se como um folha de papel a ser rasgada. A dor foi forte e de imediato tive de me sentar. Ainda caminhei um pouco, coxeando muito mas tive de parar e procurar ajuda.

Uma ida ao hospital de Almada e uma consulta médica de urgência atiraram-me para aqui, para o sofá, com a perna esticada e apoiada na mesa, isto por um período nunca inferior a uma semana. Num momento um gajo está descontraído e confiante até à inconsciência de si próprio, no momento seguinte está incapacitado de se movimentar livremente e muito mais consciente do seu corpo do que aquilo que desejaria.

Ok, estás de férias, dirias tu, angelical leitor, numa tentativa de elevares o meu ânimo. O caraças, responderia eu, prefiro trabalhar que nem um cão mas manter a mobilidade e poder levantar-me e caminhar quando me apetecer sem necessitar de deitar mão a um par de muletas.

É quando ficamos assim, frágeis, que percebemos aquele desejo que normalmente é formulado pelos mais velhos quando nos dizem "saúdinha!"