segunda-feira, novembro 28, 2016

Um rabisco

Tanta gente a tentar perceber o que aconteceu, como foi possível? Quem votou em Trump, quais as razões desses votos?

Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.

E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?

Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?

Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.

terça-feira, novembro 22, 2016

Confissão

Eu gostava de ser bom como o Papa Francisco, gostava de ter aquela compaixão couraçada que ele mostra quando aconchega os fracos e os oprimidos e estica as orelhas aos exploradores e aos filhos da puta.

Eu gostava de ter a missão de espalhar a fé na justiça e na amizade entre os povos como vai fazendo António Guterres com aquele aspecto de suportar às costas um peso imenso sem nunca perder a coragem.

Oh, como gostava de sentir a inspiração das grandes causas, a força da esperança que outros depositassem em mim!

Mas não, sou um gajo com maus fígados. Dou por mim a desprezar certas pessoas que, se calhar, até nem merecem desprezo, a desejar que certos figurões se fodam forte e feio, não tenho a auréola de santo que gostaria de ter.

Enfim, sou obrigado a viver dentro de mim próprio, a suportar os pensamentos desviantes que me sopram aos ouvidos canções bandidas. É assim que sou. E, verdade, verdadinha, até que nem desgosto.

sábado, novembro 19, 2016

Manhã de Inverno

Encosto as pernas no Sol que a janela da cozinha deixa entrar sem grande cerimónia. O frio do Inverno chegou faz apenas dois dias (ou três). Veio atrasado mas é como se nunca tivesse ido embora.

O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.

Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...

terça-feira, novembro 15, 2016

Material e criatividade

As mulheres são, de facto, adoráveis. Olho-as e vejo a perfeição.

Da criação de Adão para a de Eva Deus melhorou muito. Fica provado que, por vezes, a matéria-prima é decisiva para a qualidade final do trabalho realizado.

Não sei se Deus fez alguma experiência anterior mas uma costela parece ser material mais indicado do que um punhado de terra quando se trata de criar um ser vivo.

Nesta cena estiveste bem, Deus, foste um bacano.

sexta-feira, novembro 11, 2016

So long Leonard


Esta noite recebi a notícia da morte de Leonard Cohen. Até um dia, Leonard, talvez te veja outra vez. Ou talvez não.

Reparo agora que os meus ídolos musicais estão, cada vez mais, enterrados na mesma cova da minha memória. Strummer, Reed, Bowie, agora Cohen, Morrison já morreu faz muito, muito tempo. Palma, meu amigo, continua bem vivo e dou graças a Deus, pelo menos por isso.

A estante onde vou amontoando os meus CD's cada vez mais se parece com um cemitério. Hoje, quando falei nisso à Ana ela perguntou-me se eu sabia o que poderia significar tal coisa? Eu sei o que ela queria sugerir, que estamos a envelhecer, mas respondi: sim, sei o que significa, significa que toda a gente morre, mesmo os imortais, qualquer coisa assim.

Resposta parva, provocada por uma mistura de desencanto e alguma raiva temperadas por um pouquinho de tristeza e desespero. Já só poderei ouvir o que eles fizeram, já não poderei esperar o que eles vão fazer.

Quando falecem estes seres humanos ficamos um pouco mais sozinhos, um pouco mais abandonados aos nossos sonhos. Já não poderemos ser estimulados pelas suas visões magníficas para vermos o mundo melhor iluminado. Resta-nos a memória, a revisita.

Até um dia Leonard, meu magnífico companheiro.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Perguntas, perguntas…


É o presidente Trump um retrato do mundo actual? É ele o espelho mágico no qual nos olhamos e a quem perguntamos se há alguém mais democrata do que nós? Nós… nós… mas quem somos nós, aqueles por quem o Senhor Director fala no seu editorial de 10 de Novembro, “Este território desconhecido”? Somos os que estão surpreendidos com a vitória do Donald? Os que vivem preocupados com os movimentos populistas de pendor totalitário que medram um pouco por toda a União Europeia? O que nos une, o que nos torna um todo?

Tal como nos comics americanos, por cada super-herói há um super-vilão. Se “nós” existimos “eles” também estão por aí e, de momento, são “eles” quem está a ganhar. Temo que o problema resida precisamente na possibilidade que “nós” não existamos, que “nós” sejamos uma personagem ficcional e “eles”, pelo contrário, sejam reais. Temo que “eles” saibam o que (não) querem enquanto “nós” queremos coisas diferentes uns dos outros. “Eles” têm inimigos definidos e unem-se, “nós” não temos como nos unir pois não identificámos ainda o inimigo, estamos divididos. “Nós” acreditávamos que personagens como Trump, Farage e Le Pen só poderiam crescer noutro tipo de contexto sociopolítico. Erro crasso, percebemos agora. Seremos,"nós" e "eles", a mesma coisa, a mesma gente?

Olhando para os resultados das duas votações (a do Brexit e a eleição do Donald) que obrigam a reflectir sobre que mundo é este, verificamos que uma e outra foram razoavelmente renhidas, que há uma tendência clara para uma divisão em duas partes que se equivalem. Estará o Ocidente a partir-se ao meio, a abrir uma brecha através da qual se esvaziará irrevogavelmente?
Se Trump for o tal espelho mágico decerto não tardará a dar-nos respostas.

Carta enviada ao Director do jornal Público

domingo, novembro 06, 2016

Monstro

Ser mau é o resultado de um amontoado de circunstâncias que se equilibram umas sobre as outras como aqueles chinezinhos incríveis que penso lembrar-me de ter visto um dia, num palco qualquer, algures no mundo. As coisas todas, umas em cima das outras, aquele momento inacreditável, tudo assim, como se pode imaginar: e a maldade irrompe, inundando o momento que vivemos!

O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?

Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.