terça-feira, dezembro 12, 2017

Ditados populares

Olhar a nossa sociedade com uma lente de aumentar não é nada boa ideia. A menos que tenhamos um cargo importante, que implique análise e decisão da coisa pública, melhor será padecer de uma certa miopia.

Quando a imprensa nos empresta uns óculos graduados e nos põe à frente do nariz certas cenas menos recomendáveis lá temos nós de olhar e ver. Ver é, por vezes, uma coisa extremamente desconfortável.

Quando vemos essas tais cenas horrendas ficamos a pensar no que não vemos, ficamos a pensar na bicharada imunda que se desloca nas sombras húmidas do anonimato.

"Longe da vista, longe do coração", diz o povo.
Longe do coração e longe do cérebro, longe de tudo, direi eu (que também sou povo): "quem não sabe é como quem não vê"... e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Rabo de fora

Não há nada mais estúpido do que ordenar a existência humana segundo pretensos padrões de comportamento estabelecidos por uma divindade. É que, para podermos aceder aos desejos, objectivos e imposições do Ser que nos é superior, temos de aceitar uma qualquer intermediação. Para acedermos à informação necessária temos de confiar em quem no-la transmite. Isto é "bullshit", como dizem os outros.

Acreditar que a Bíblia contém a Palavra é uma patetice, baixar a cabeça em presença da Torah, crer no Corão... mais patetices. E por aí adiante. O mais perigoso nem é a literatura inclusa nestes livros, o perigo reside nas mentes distorcidas daqueles que estão encarregues de interpretar os textos de forma a que nós, comuns mortais, possamos obedecer cegamente a... a qualquer coisa difusa que eles vislumbram lá pelo meio das palavras, pois que misteriosos são os caminhos de todos os Senhores.

A Fé tem razão de ser. Mas obedecer cegamente a um exército de imbecis investidos de um poder fantasmático que lhes confere o poder de nos enviar direitos para uma Eternidade repleta de penas e castigos ou, pelo contrário, oferecer-nos as delícias de um paraíso que está sempre muito para além da nossa capacidade de imaginação, obedecer aos padres sejam eles de que cor ou credo forem, isso é uma violação que executamos sobre nós próprios.

Eu gostava de acreditar em Deus mas não sou capaz. Cada vez mais O vejo como sendo um gato. Um gato grande, gordo e pouco educado, escondido atrás do sofá mas com aquele enorme rabo de fora.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

domingo, novembro 26, 2017

Censurado

Leio o jornal, os suplementos dominicais, as revistas em papel acetinado, leio posts no facebook, artigos de opinião, prosas engraçadotas, palavras ditas nos bicos dos pés e há uma palavra que se esgueira até ao topo do meu pensamento: FODA-SE!

Devo estar maldisposto.

sábado, novembro 25, 2017

Um certo terror

Quanto mais por aí ando mais me convenço de que estar vivo é temer ser ignorado. Nada aterroriza mais um ser humano do que a irrelevância, a transparência absoluta do Ser. Sermos olhados e termos a sensação de que  aquele olhar nos trespassa que somos camaleões perfeitos que nos confundimos com as paredes com os placards publicitários com os faróis apagados dos automóveis. Ah, horror dos horrores, não sermos nada é muito pior que não sermos ninguém!

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

domingo, novembro 12, 2017

Memória

A memória é uma coisa estranha; inventa-se a si própria, autonomiza-se, deixa-me sem saber o que de facto aconteceu, leva-me a acreditar mais nela do que em mim. A memória é como um animal de estimação a tiranizar o dono: quem possui o quê?

A memória é como água perdida numa estrutura arquitectónica, a furar, a encontrar sempre um buraquinho por onde passar, a inundar os espaços mais largos: a memória é uma inundação inesperada e surpreendente.

Tenho uma memória tão subtil que sou levado por ela a acreditar que é fraquinha, que não tem poder, que falha. A minha memória é tramada. Prega-me partidas constantemente. Sinto-me indefeso perante as suas traquinices. É ela quem me constrói o passado mas não lhe permito que me influencie o futuro. Acho eu...!