quarta-feira, setembro 13, 2017

O dia das eleições

É sempre a mesma bambochata, o dia das eleições em Portugal é como se fosse uma coisinha feita de cristal que é preciso tratar com o máximo dos cuidados não vá desfazer-se ao mais leve sussurro.

A abstenção tem vindo a aumentar, o povo eleitor parece cada vez mais arredado das urnas e das cruzinhas no boletim de voto. Tenta-se explicar a a abstenção das mais variadas formas: o povo baldou-se porque estava a chover ou porque estava calor e foi para a praia. Ou porque era um fim-de-semana prolongado e emigrou em direcção ao Sul, ou porque outra coisa qualquer.

Em suma, todas as razões são boas para não votar. Não é que o povo se esteja a marimbar para o seu dever cívico, não! O povo até queria cumprir o ritual democrático mas há sempre qualquer coisa a distraí-lo.

Desta vez a questão de lesa-democracia é a marcação de um jogo de futebol entre o Porto e o Sporting para esse dia 1 de Outubro de 2017. Haverá alguém que deixe votar porque se joga futebol lá para o fim da tarde? Se isso acontecer parece-me que o problema é do eleitor e não do jogo. Tal como não me parece correcto culpar a chuva ou o sol da falta de cultura democrática.

Talvez os partidos políticos e os candidatos e os meios de comunicação social tenham algumas culpas no cartório. Mas não, o futebol é bem mais fácil de culpar.


segunda-feira, agosto 21, 2017

Ter razão

Todos queremos ter razão!

Vá lá, não adianta estares a rebuscar na tua cabeça se queres ou não ter razão, surpreendido leitor, não vais conseguir encontrar uma justificação aceitável que comprove a tua humildade. Népias, não te safas com facilidade porque a tua Consciência (ou Alma ou lá o que é essa Coisa) está sempre a segredar-te coisas ao ouvido e não te deixa mentir a ti próprio.

A nossa necessidade de ter sempre razão leva-nos a estar constantemente a pensar na melhor maneira de o provarmos. Nota bem: não conseguimos ter razão mas podemos provar que a temos. Confuso, não? Pois, também me parece. É exactamente o que se está a passar comigo à medida que vou escrevendo estas palavras; eu quero ter razão quando afirmo que todos queremos ter (sempre) razão mas não sou capaz de encontrar um discurso suficientemente poderoso que justifique esta patranha.

Todos queremos ter sempre razão!

A melhor maneira de ter razão é ser agressivo, ser afirmativo, avançar como se o nosso pescoço não fosse capaz de nos voltar o olhar para trás. Ter razão é como ter um torcicolo. Só é doloroso se deixarmos a única posição confortável.

sábado, agosto 19, 2017

Macaquices

Ler, ver, filmes, ouvir música, conversar, é como aquela cena dos três macacos mas sem as patas a tapar os olhos, os ouvidos ou a boca. Somos feitos disto, é este alimento que, de alguma forma nos vai fortalecendo o corpo por via do espírito. Somos macacos cultos.

A cena dos macacos tem a ver com um provérbio eventualmente chinês mas que terá ganho os galardões de universalidade por via japonesa. A ideia é não ver o mal, não ouvir o mal e não falar mal, uma via para a sabedoria e a santidade, um manual de bons princípios e humanismo à maneira oriental.

É complicado cumprir o objectivo dos três macacos sábios, afinal de contas somos apenas humanos.

terça-feira, agosto 08, 2017

Estação tola

A "estação tola" (silly season segundo os súbditos de Sua Majestade William Shakespeare) traz consigo a imbecilidade elevada à condição de coisa divina e os incêndios são o inferno na Terra. É assim mesmo, uma época de extremos, um lugar sem fronteiras demarcadas. As coisas entram umas dentro das outras como balas, como setas disparadas por um lança-mísseis.

Dizem-se enormidades, sucedem-se as catástrofes, a estupidez veste fato de erudição e o contrário é uma ratazana com penas a cantar dentro de uma gaiola dourada. Mas...

... será que este mundo ao contrário acontece apenas nesta época do ano? Não vivemos nós uma eterna "estação tola", longa e imprevisível como um inverno no mundo da Guerra dos Tronos?

Tudo pode não acontecer, bem como o seu contrário.

segunda-feira, agosto 07, 2017

Metafórico

- Quando temos uma ideia que não se revela grande coisa, melhor será deixá-la pairar, como se fosse um abutre a voltear lá no alto, namorando o corpo moribundo da nossa imaginação. Mais tarde ou mais cedo o abutre vai agir e alguma coisa haverá de acontecer. Quanto mais não seja, a ideia-abutre levanta vôo outra vez...
- E depois?
- Depois? Depois voa...
- Que metáfora de merda.

sábado, julho 29, 2017

Heroísmo

E se o problema dos incêndios descontrolados fosse potenciado por um excesso de voluntarismo heróico por parte de bombeiros nem sempre bem preparados para o combate? E se os nossos heróis fossem demasiado corajosos e pouco cerebrais?

Esta possibilidade é terrível. Levantá-la é uma atitude arriscada. Eu posso fazê-lo aqui pois a minha voz dificilmente chegará ao Céu, mas que essa hipótese tem fundamento, lá isso tem.

Temos muitos bombeiros voluntários, problemas na coordenação de acção de combate a incêndios e o país vai ardendo. E arde (percentualmente) mais que os outros países europeus. Somos o Inferno na Europa mas temos dificuldade em debater a proveniência do Diabo que preside a esta devastação. Porque arde mais Portugal do que arde Espanha, do que arde França, do que ardem todos os restantes?

Haverá alguém interessado em debater este "pormenor", para lá da questão das listas de nomes das vítimas, do populismo ou não populismo, do raio que os parta? Hércules, o maior de todos os heróis, foi empurrado para o heroísmo por razões sórdidas.

segunda-feira, julho 24, 2017

Traduções

Abri duas edições diferentes de Coração das Trevas de Joseph Conrad. Li a primeira página de uma, depois a primeira página de outra. Eram tão diferentes! Não fixei os nomes dos tradutores (podiam ser tradutoras) mas uma das traduções era deselegante a outra parecia muito melhor. Qual delas seria fidedigna?

Quando pego no Moby Dick fico a olhar a capa, a pensar. Não tenho muita vontade de ler. Quem me garante que não estou a ler uma merda qualquer? Não tenho dúvidas que qualquer tradução é uma interpretação mas ter consciência disso é bastante aborrecido. Como sei que estou a ler uma boa tradução ou uma tradução manhosa?

Preciso de aprender inglês o suficiente para poder ler os originais. E aprender mais francês e mais espanhol. Não vou ler nunca autores japoneses nem chineses nem indianos nem os clássicos gregos. Claro que isto sou eu a gozar comigo próprio, nunca serei capaz de aprender aquelas línguas e daqui a uns dias já me esqueci desta experiência traumática e vou voltar a ler traduções.

Não há como escapar desta armadilha.