sábado, janeiro 14, 2017

Este mundo

 Os Pilares da Sociedade (George Grosz, 1926)

A cada dia que passa maior é a minha convicção de que estamos a entrar num ano de merda.

A Ética, irmã gémea da Estética, essa puta maluca, cada vez é mais ignorada por lhe serem reconhecidos cada vez menos atributos e menos atractivos de vária ordem. A degradação é gradual e em ritmo acelerado.

O mundo pula mas já não avança, como sugeria aquela canção melíflua intitulada "Pedra filosofal" (lembras-te?); agora, a cada pulo, o mundo enfia as patas fundo na lama, salpica o focinho com  pingos de diarreia mental e outras coisas fedorentas que vão atascando a nossa sociedade.

A cada dia que passa este mundo é, cada vez mais, um cagalhão que flutua no espaço.

domingo, janeiro 08, 2017

Adeus Marocas

Morreu Mário Soares. Esteve tanto tempo internado em estado terminal que os jornalistas tiveram oportunidade de escrever toneladas de artigos, quase todos elogiosos. Hoje, no dia imediato ao passamento do velho democrata, a coisa explode: são centenas, milhares de artigos nos jornais, documentários nas TV's, repetições de entrevistas e debates, depoimentos, testemunhos, recordações... por uns dias Soares será perfeito. Ele que foi o mais imperfeito de nós e, por isso mesmo, o mais admirável de todos.

Disse um dia que "só os burros não mudam de opinião". Entre muitas outras coisas que julgo ter aprendido com ele esta foi a que mais vezes recordo.

sábado, janeiro 07, 2017

2017 tem 7 dias

Os dias vão passando e até já houve um ou outro com uns tonzinhos cor-de-rosa lá no céu, a ajudar a imaginação, a dizer-lhe que se componha e endireite que o ano não há-de ser a merda que parece adivinhar-se.

No entanto o passarito azul não tem descanso e caga e vomita todo o santo dia a fazer com que um gajo veja o rosa a ficar vermelho de raiva. Há um clima geral de crispação a formar-se, um sistema de altas pressões a carregar sobre as mentes que se julgavam limpas.

É o mundo a rodar sobre si próprio, tonto como só ele sabe ser, governado por bandos de abutres cada vez mais gordos, abutres rastejantes que as asas já não lhes permitem descolar as patorras do chão.

Vou continuar a olhar para o ar esperando que o céu ganhe outra vez as tais tonalidades mais rosadas, como as bochchinhas de um bebé saudável.

Sinto saudades do futuro.

domingo, janeiro 01, 2017

2017

Tenho todas as razões para desconfiar do presente. As bestas-feras que miam loas ao passado e são encarados como arautos de amanhãs que, se não cantam, choram só um bocadinho estão aí para governar o Mundo.

Parece impossível que esses cabrões-filhos-da-puta se apresentem tão vigorosos, clamando por justiça sem pingo de vergonha nas ventas. Batem no peito como o King Kong, das fendas que lhes servem de boca escorrem princípios cristãos como se fossem baba, nhanha, uma coisa repulsiva.

Peido-me para eles com toda a convicção.

Bom Ano Novo.

sábado, dezembro 31, 2016

Proverbial

Se um gajo der uma cana a um outro, que não saiba pescar, melhor será que lhe não vire as costas.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Energias

Somos nós meras carroças transportando um cérebro que lamenta não ter pernas para se movimentar livremente pelo mundo? Que raio de coisa é o corpo? Tão frágil, tão frágil, o corpo é uma coisa tão frágil!

Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...

Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Crimes e outras coisas

Esta manhã li dois contos de Patricia Higsmith de uma colectânea com título genérico igual ao da primeira historinha: O Álibi Perfeito. Historinhas que me parecem geniais na invenção de situações surpreendentes mas com um problema terrível na edição que estive a ler, a tradução é escabrosa. Dizer que é péssima é fazer um favor ao autor de semelhante assassinato. A coisa é tão mal traduzida que a tradução é o mais hediondo e repugnante de todos os crimes contidos no livrinho.

Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.

Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.

A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.